terça-feira, 15 de dezembro de 2009

se ao menos o sol saísse. o telefone vibrasse. a gaveta caísse. a luz acendesse. uma música começasse.
se ao menos o interfone tocasse. alguém chegasse. o espelho partisse. sua boca tremesse. seus olhos fechassem.
se ao menos chovesse. as janelas quebrassem. as portas batessem. seus braços se abrissem. e tudo sumisse.
Quando o mundo parece cinza você tem ânsias de abrir a janela para ver se o cinza aqui dentro não é só o reflexo da vidraça fechada. Você abre e continua cinza. O céu e a vida lá fora estão tão cinzas quanto o ar aqui dentro.
Em dias cinzas assim. Você respira e o céu também é pesado. O ar entra com dificuldade e seus pulmões imploram por um pouco de fumaça. Cada batida do seu coração é um estrondo e os trovões lá de fora estão apenas na sua cabeça.
Não vai chover, você sabe que não, o sol só acordou de mau humor e resolveu ficar escondido. E a vontade é de poder se esconder como ele, já que a fuga é impossível. Não se pode fugir para sempre. Mas se fosse possível você com certeza o faria. Sem olhar para trás e sem pensar meia vez. Mas seus fantasmas continuam te acordando no meio da noite e você não tem mais treze anos. O mundo não é uma bola de gude e pessoas têm vontades e sentimentos que você repudia. Os dias se arrastam devagar e o mundo ainda gira ao contrário.
Se ao menos você encontrasse uma resposta. Um motivo. Uma explicação... uma pedra no meio do caminho, uma luz se acendesse, o mundo explodisse ou uma estrela caísse. Se ao menos suas canetas fossem laranjas.
E você pinta as unhas, pinta os cabelos, pinta as letras e pinta as lentes. Tentando colorir tudo de vermelho.
Mas nada. O mundo dos três lados, da vidraça e do espelho, continua cinza. Os olhos que te encaram de volta continuam não sendo os seus. A meias nos seus pés também não são as suas.
Só esse céu cinzento coberto de infelicidades. Só esse aperto e esse peso do tamanho do mundo turvando seus olhos e os mantendo no chão. A esperança esmagada nas entrelinhas. E seu urubu pintado de verde trancado naquela gaiola. As cartas na gaveta. Os retratos na estante e os quadros nas paredes. E as flores de papel de cigarro. Tudo cinza. Tudo turvo. Como dois pés esquerdos.
Como se afogar num trem.
Como um silêncio canhestro. Como um dia chuvoso de Dezembro. Como um fim de tarde sem pôr-do-sol. Como um sorriso triste.

sábado, 12 de dezembro de 2009

"Porque às vezes, eu queria me chamar Clementine, ter o cabelo azul e apagar um pedaço da minha memória. Deletar o que não se deve / se quer / se pode lembrar.

Assim: pra sempre."
[J.U.]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Amanhã...
Sinto uma angústia tão grande. Já falei que sofro por antecipação? Pois é...
E nada nem ninguém consegue aplacar essa dor. Dez anos, a mesma... Eu fujo, fujo... tento... mas por mais que eu me perca o passado sempre me encontra.
Nem me reconheço mais. Os olhos que me encaram no espelho não são os meus.
Me sinto infinitamente triste. Rir de tudo é desespero.
Achei que poderia esquecer ao menos esse ano... mas parece que é impossível.
Se ao menos... sei lá... eu conhecesse alguém diferente.
"Páginas arrancadas. Não me lembro de ter feito isso.
Pelo visto é a primeira vez que escrevo em dois anos."


Acho que eu sou muito triste.
Preciso aprender a rir sozinha. Chorar eu sei, bem até demais. Tenho motivos suficientes só por ser Dezembro.
Sinto medo. E não quero chorar mais.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

"vamos combinar, então, que da próxima vez eu abandono esse papel de santa. nada de coração, sentimento, paixão. nada dessas palavras que a gente encontra em versos e poesias de cartão mal escrito. fica combinado que, da próxima vez, você vai se divertir em outro lugar. vai torcer contra mim sentado em outra arquibancada. rir de outra piada. fica assim, então, combinado. eu não choro mais de madrugada, não me chamo mais de tonta em frente ao espelho, não borro mais com a mão o meu batom vermelho. não puxo os meus cabelos. não brigo mais. nada de gritos e palavrões. nada de portas batidas rachando as paredes aos poucos. nada de perseguições. fica combinado que eu não acredito mais em bonecos de noivos em cima de bolo cheio de creme. em fatia cortada de baixo pra cima. em goles de bebida em copos cruzados. combinado, então. eu não me derreto mais com flores no meio do dia. não acredito mais em frases quase dentro da orelha. em lambidas no pescoço. em telefonemas. não me admiro mais com laço grande em caixa de presente. fica combinado que não sou mais a boazinha, a paciente. a partir de hoje, pedra no lugar do coração. fica combinado que não haverá mais sofrimento, dor, envolvimento. a partir de hoje, abandono de vez o papel de santa. serei puta. a partir de hoje, nem beijo na boca"


[Eduardo Baszczyn]
http://www.coisasdagaveta.blogspot.com/
"todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. flores. lua. olhos. lábios. eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. eu não consigo."

[victor shklovsky]
Se quiser que eu minta, eu minto
Se quiser que eu finja, eu finjo
se quiser que eu chore, eu choro
se quiser que eu sinta... me perdoe.

eu sempre fiquei na esperança de que um dia o que você escreveu fosse pra mim... mas eu nem acredito mais em amor, nem em coisas bonitas como ele. por mais que eu mostrasse você nunca sentiu, por mais que eu passasse por cima de tudo... você nunca achou que estava errado... e por mais que eu te perdoasse de antemão você nunca desmonstrou se importar, sempre achando que estava certo e eu sempre mais errada pra você. por mais que eu mova o mundo, nunca seria o bastante ou o suficiente. como nunca fui. pra você.





"É por saber como tudo termina, que abandono esta história por aqui. Incompleta. Eu, hoje, corto dois pontos dessas minhas reticências e deixo apenas um."
[Eduardo Baszczyn]
http://www.coisasdagaveta.blogspot.com/